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Posts Tagged ‘homenagem’

* escrito por Cristina Huggins

Mario BenedettiAntes de falecer Mario Benedetti vinha escrevendo um livro cujo título era Biografia para encontrar-me. Ele tinha 88 anos e ainda perscrutava os corredores do seu labirinto particular. A incansável trajetória em busca de si mesmo demonstrou que o percurso não é aventura de principiantes, exige perspicácia, disciplina e escrutínio da alma.  Julgar essa procura tema primário é lançar a inscrição do templo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo” em um lugar simplório. Sócrates, que não sabia tudo, mas intuía muito sobre a condição humana, recuperou o prestígio do ato reflexivo e a satisfação de estar em companhia própria. Não foi por casualidade que a partir dessa inscrição ele construiu sua filosofia.

Benedetti não construiu uma filosofia no sentido estrito, mas apontou caminhos do conhecimento para tantos quantos achegaram o espírito à sua produção. Embora adoecido desde abril, pressentia que ainda tinha carícias para entregar e, assim, foi resistindo. Não é difícil imaginá-lo pensativo, sem pressa.  E quem a teria se pudesse destinar horas a fio com livro em punho ou, simplesmente, contemplando a luz da tarde, enquanto a brisa traz inspiração?

Impossível descrever Mario em dois ou três parágrafos. Penso nele como um paradoxo das estações, outono florescido de primavera. Sincero e comprometido, nunca esqueceu a delicadeza de anunciar a verdade na forma e medida exatas para curar olhos tímidos ou espíritos rebeldes. Sua obra é um receituário completo para dores de toda e qualquer natureza.

O poeta deixa saudades. Fãs ardorosos ou apreciadores recém-iniciados despertaram mais tristes há pouco mais de um mês, no dia 17 de maio. O tom melancólico, a princípio indecifrável, deu lugar à tristeza estampada nas manchetes dos cadernos culturais de vários países. Benedetti estava certo, “o esquecimento está repleto de lembranças”. Por isso, a cada dor, paixão, surpresa, delírio, espanto, ele estará presente. A obra desse escritor incomum haverá de confortar seus milhões de leitores e suas letrinhas mágicas repousarão sábias, em estantes, mesinhas-de-cabeceira e para sempre no coração daqueles que o amam.

Mimo 1: Veja, abaixo, vídeo da canção Una mujer desnuda y en lo oscuro (Mario Benedetti – Joan Manuel Serrat)

Mimo 2:  Deguste o poema Los formales y el frío.

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